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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ESTRANHO (DES)ESTRANHAMENTO




Vou me atrever a falar sobre o caso do cumprimento do restante da pena do Sr. Zé Dirceu em domicílio a partir do meu muito limitado conhecimento de leis. Nada sei, na verdade, sobre isso, mas como fui indagado, vou tentar me posicionar. Contrariando minhas próprias aulas de Oratória, desculpo-me pela ignorância jurídica.

Talvez seja realmente estranho pensar que alguém condenado pela instância máxima da nossa Justiça esteja fora da prisão. Acho que é. Entretanto, penso que deve existir, em nossa legislação, um mecanismo que permite tal mudança de regime na pena e o Sr. Zé Dirceu, assim como qualquer outro cidadão brasileiro, está fazendo uso deste mecanismo, está usando um direito que lhe cabe (mesmo que isso pareça revoltante, parece-me que a lei nem sempre tem uma aparência justa) – sé é justo ou não, eu não sei; mas certamente deve ser legal, isto é, deve estar dentro do que regem nossas leis. Vale lembrar que a lei serve para todos e quero eu, cidadão brasileiro, também se um dia precisar, poder fazer uso dos mecanismos que garantam os meus plenos direitos.
Mas é estranho, realmente.
Aliás, muita coisa neste julgamento todo é estranha, principalmente se compararmos com outros. Vejamos:
1.       Os réus do Mensalão do PT, até onde eu consegui pesquisar e entender – como já disse, a partir do meu irrisório conhecimento jurídico – foram condenados segundo a teoria do domínio de fato, isto é, sem provas cabais (http://professorlfg.jusbrasil.com.br/modelos-pecas/114000373/dicas-quentes-de-direito-penal-caso-mensalao);
2.       O julgamento do Mensalão do PT, ao contrário do Mensalão do DEM ou do PSDB mineiro, não foi desmembrado (Então, ficamos assim: o mensalão do PSDB foi desmembrado. O mensalão do DEM foi desmembrado. Já o mensalão do PT não foi desmembrado – istoe.com.br)  – portanto, os réus foram todos julgados juntos – ainda que por crimes diferentes;
3.       O Mensalão do PT, ao contrário do Mensalão do DEM e do PSDB mineiro foi julgado diretamente no STF, o que dá aos réus menos chances de recursos. Os outros dois escândalos mencionados – embora mais antigos – sequer foram ainda julgados (http://professorlfg.jusbrasil.com.br/modelos-pecas/114000373/dicas-quentes-de-direito-penal-caso-mensalao).
4.       Sabemos, ainda que como leigos, que a posição de um juiz deve ser imparcial e ficou evidente para todo o Brasil que o Presidente do STF e relator do processo do Mensalão foi tudo, menos imparcial.
5.       Finalmente, mas não menos importante, existe o fato de que, pela primeira vez na História do STF, um julgamento virou espetáculo. A Rede Globo fez questão de interromper sua programação para transmitir, ao vivo, e com detalhes, o tal julgamento. Tenho sérias desconfianças quando uma das maiores emissoras de televisão do mundo faz algo assim. Seria inocência linguística, no mínimo, pensar que – às vésperas de eleições municipais, a Globo faria isso sem nenhum interesse.

Não tenho condição nem interesse em defender o Sr. Zé Dirceu, para isso ele tem seu advogado. Minha intenção aqui é refletir sobre o ESTRANHAMENTO. Interessante pensar tamanho do estranhamento causado pela mudança no cumprimento da pena de um réu condenado por um suposto esquema de corrupção frente à ausência TOTAL de estranhamento diante de casos como (alguns mais antigos e envolvendo quantias bem maiores em dinheiro):
a) O cartel existente nas licitações de trens e metrôs nos governos do PSDB em São Paulo;
b) O não julgamento do Mensalão do PSDB mineiro;
c) O não julgamento do Mensalão do DEM – aliás o desconhecimento, inclusive;
d) O aeroporto construído pelo Sr. Aécio no ‘quintal’ do tio;
e) O helicóptero carregado de cocaína que a ninguém foi devidamente explicado;
f) O avião em que voou a Sra. Marina Silva durante sua campanha ainda sem explicação;
g) O esquema de compra de votos do governo FHC para conseguir aprovar a emenda da reeleição...
... e tantos outros.

Não é estranha esta falta de estranhamento?
Onde está a indignação daqueles que esbravejam contra a soltura do Sr. Dirceu? Contra o Mensalão do PT? Claro que podemos e devemos nos indignar com isso, se isso nos deixa indignados! Sim, fiquemos indignados! Mas por que também não se indignar, então, com os outros escândalos? Por que este tratamento tão parcial? Sejamos duros, sejamos fiscais, sejamos honestos – mas com todos, de forma igualitária e justa. Senão, é tudo só hipocrisia.

Causa-me, realmente, grande estranhamento esta desproporção de estranhamentos. 





terça-feira, 7 de outubro de 2014

(DES)ELEIÇÕES



De repente, o horripilante ficou bonito. E segregar, separar, hostilizar são palavras de ordem. E diante de tanta desordem, a alienação corre solta e ligeira. O Nordeste vive muito bem sem o resto. Mas o resto não existiria sem o Nordeste – está é a verdade verdadeira.
E nós - os donos do país – estamos a experimentar um pouco do que há séculos os nordestinos heroicamente enfrentam: a seca.
Jamais me iludi com as manifestações de 2013: rebanho se revolta, mas volta pro dono – dito e feito.
O fato é que Educação ruim + televisão forte só pode dar no que deu – retrocesso: Serra, Alckmin, Russomano, Bolsonaro, Infeliciânus e por aí vai a lista de líderes, de mui dignos representantes.
Parabéns a quem está se sentindo bem representado!
Parabéns a quem não entendeu nada, não entende nada... somos todos parte da mesma parte: o mal feito ao outro volta pra mim – a pobreza que não me atinge me atinge na forma de violência.
Custa-me muito entender a mediocridade de quem não busca além do superficial, de quem acha que eleição é BBB, de quem se diz Cristão e faz do discurso de ódio o seu hino.
Parabéns a quem se enxerga refletido nos representantes eleitos.
Parabéns!

Eu me orgulho de não compartilhar este sentimento com você. 


sábado, 17 de maio de 2014

Ler ou não ler, eis a (verdadeira) questão.



Certas cenas valem ficar registradas na memória.
Hoje vi um garotinho muito bravo por não saber ler.
Revoltado, disse: "eu nunca vou fazer seis anos e ir logo pra escola"
O pai tentando explicar que ele já ia fazer cinco este mês e que logo logo estaria lendo tudo. 
O irmão mais velho tentando explicar as sílabas no aviso no ônibus...
E eu ali a me perguntar: o que será que a escola anda fazendo de tão errado que assim que as crianças aprendem a ler, vão perdendo esse desejo, essa vontade linda de ler?






quinta-feira, 15 de maio de 2014

SER QUEM SOU





Sua violência dói não onde você bateu
dói no que nos faz mais iguais
na alma
na honra
na vergonha que me causa
apanhar por ser quem sou

O corpo, continuidade do meu eu,
esconde, rasga, mói, desiste
O eu, continuidade do meu corpo,
encolhe, engasga, dói, mas resiste

Ser o que se é não é escolha
o que se faz do que se é, sim...

Escolheu me agredir por eu ser quem sou
- porque eu ser quem sou
te agride mais que tudo...
ser quem sou 
grita na sua cara
que você não é quem é




terça-feira, 22 de abril de 2014

XADREZ




E de onde virá esta necessidade whisky de pensar?
De onde vem este meu desejo inca de ser mais?
Por que não me valem meus dias vadios?
Meus dias vazios - por que não me velam?

Ando doido a catar cataventos e vaginas
Ando afoito querendo saber quem é Luther King
no jogo do bicho
no jogo de xadrez da toalha da mesa

Ando tonto de não acreditar em nada
de tanto não saber piada
nem saber rir da palhaçada
de ser cidadão de bem 
- útil, trabalhador:
enfermo de civilidade
enfermo de cidadania...

De onde virá este trambolho cinza
em mim,
que não me deixa deitar na cama
ouvir Sinatra e dormir pelado...
simplesmente?
Por que preciso ser o homem
que escova dentes, que corta unhas,
que faz a barba?
E não só o que se masturba
gostoso
antes do sono
que goza sozinho, egoísta
assim como nasceu um dia
e como há de morrer uma noite...






segunda-feira, 14 de abril de 2014

DESPEDIDA




Quando eu o conheci, ele chorava no canto, sentado no último banco. Precisava tirar os óculos sempre para secar os olhos. Ele chegou, sentou-se, ouviu, chorou. Depois entrou, falou, ouviu, calou, chorou.
E eu, de repente, me dei conta de que tudo acaba. Que a vida é assim, mesmo: por mais que se viva, ela vai perder, no fim, e vai-se embora de nós e o que sobra é um corpo deitado sem ar nos pulmões, sem força nas mãos, sem voz, sem beijo, sem passos nos pés.
Ouvi, falei, calei, chorei. 
A dor não era perder o companheiro dos muitos anos - a última voz ouvida antes do sono, a mão segurando a mão na hora do medo, o beijo roubando sentidos ao meio-dia. A dor era a não despedida. A dor era o adeus arrancado à força. A última vez olhando o rosto tantas vezes beijado simplesmente negada.
"A família dele não me permitiu ir ao velório nem ao enterro, nada. Não é a ausência que está me matando, mas o silêncio que ficou em mim por não dizer àquele corpo frio no caixão que eu o amaria para sempre. Suporto viver sem ele, mas não suporto que ele tenha ido sem mim". 







sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CIVILIZAÇÃO






E no meio da mata, um bode vira para um gambá e começa um diálogo em uma língua que será, depois do fim do mundo, inventada...

- Em todo mundo, eles somam estarrecedores mais de 2 bilhões de pessoas.
- Estarrecedores? Mas eles, ao todo, já são mais de 7 bilhões!
- Sim, mas todos os outros. Sim, todas as 5 bilhões de pessoas estão erradas. Estão absoluta e terminantemente erradas. 5 bilhões de pessoas serão condenadas ao fogo eterno. 5 bilhões de pessoas completamente perdidas pela Terra, vagando cegas e erradas, porque só há uma única verdade, uma única salvação. E qual é esta verdade?
Sim, o Cristianismo.

Os 2 bilhões de cristãos estão certos.
Os 5 bilhões de não cristãos estão errados - simples assim - está na Bíblia - sei lá em que livro - graças a Deus não leio a Bíblia, Deus me livre! - diz o bode e bate na madeira - uma escrivaninha repleta de livros satânicos (uma antiga enciclopédia) e um computador no qual se lê "Parabéns, você é o cliente número 1000 e foi sorteado com um cruzeiro para o Caribe, desde que você, é claro, seja batizado!"

E o bode, ignorando o cruzeiro, o Caribe e o batismo continua:
- E daí que o cristianismo nada tem a ver com o que o tal cristo, um dia, supostamente disse? 
E daí que este cristianismo que aí está mata, esfola, julga, condena, segrega, discrimina, é impiedoso? Se não é tanto hoje, já foi muito (se humano não tem memória, bode tem). E daí? Vale tudo em nome do cristo que este cristianismo inventou...
E o melhor é que o tal cristão - fiel e devoto - convicto de seu cristianismo, vai virar e dizer  - então o bode faz uma voz esganiçada e imita, tentando ser engraçado sem ser, um fervoroso cristão aos berros - literalmente: "Mas é isso mesmo - os 5 bilhões estão errados, está na Bíblia... 'mil cairão ao teu lado, 10 mil à tua direita' e é tanta gente caindo aqui e ali, cá e acolá que, no fim, só vão sobrar os 2 bilhões de cristãos, mesmo. 

Só espero cair logo, conclui o bode com cara de comentarista de TV arrependido da asneira que disse (bode dizendo asneira parece coisa de programa de auditório, mas acreditem, não é, este é um texto sério, muito sério)... porque fico pensando no coitado que não for cristão e que ficar entre os últimos a cair... quero ver esse coitado conseguir lavar uma louça com tanto testemunha de Jeová na porta!!!

Vão-se, depois dessa alegre conversa, felizes e ateus, o bode e o gambá viverem suas vidas, livres de nossas crendices, de nossa civilização!